Bandeira Branca

BANDEIRA BRANCA

O que era segredo de amizade,conto agora,passados 29 anos do ocorrido pois já é muito tempo para pouca intimidade.O seu nome era Drumond,soldado raso , vindo do interior de Minas Gerais onde criou fama por ter viajado a capital e se apresentar como voluntário ao exercito.

-Este vai nos encher de orgulho!!-Dizia ele o que se falava por lá, pelas bandas do sul de minas.O mesmo comentava ao vento não haver no Doze, alguém mais vibrador.Me lembrei deste fato por ter ouvido sobre as mordomias e facilidades que os soldados de hoje tem no quartel.Outrora,o governo era militar e o presidente um general do exercito,assim,só para começar,ser voluntario nos anos 80 era masoquismo ou desconhecimento de tudo.

Afirmo com certeza que meu amigo Drumond não era masoquista.O porque,conto já.Com o tempo passando,a vida na caserna começou a mostrar a realidade.Certamente não era lugar para alguém que não aceitasse obedecer ordens. ou aquele que quisesse destaque.Para ser o maioral ali tem-se que entrar por outra porta.Ou assim era.Dono de um genio indomável,Drumond passou a ser alvo constante dos sargentos e oficiais.Tava ali um touro jovem a ser domado, porém preso.

Quanto mais resistia ,mais sofria.Não adiantava os conselhos dados pelos colegas para que se conformasse.

–Não tenho sangue de barata!!– dizia– Tá pra nascer o homem que mande em mim..Em segredo me dizia estar desapontado com o quartel.Esperava um tipo de glória especial.Confiou na propaganda para atrair voluntários

–Parecia bonito..–Era um momento de rara sinceridade.

Passou a perguntar aos mais veteranos o que tinha de fazer para ser expulso,já que não queriam por bem sairia por mal.Alguns querendo ver o espetaculo que aquele caipira maluco poderia fazer sugeriram entre outras coisas que saisse no tapa com um superior.Para Drumond,era pouco.Talvez desse alguns dias de cadeia para os dois,mas só.E foi na cadeia que pensou achar a soluçao.Passou ali 15 dias por ter dito palavras inapropriadas não para a filha do coronel,como pensaram alguns, mas para a esposa dele.O comandante,o coronel em questão,sabia do esforço daquele para ser expulso e que era fato conhecido e esperado por toda tropa.Por prevençaõ o mandou para cadeia.Ali conheceu um condenado por deserção com uma pena de 2 anos e 3 meses de regime fechado só saindo para um rápido e diário banho de sol.Tratava-se de uma figura singular ,inesquecível.No dia em que foi solto por cumprimento da pena,o vi ir embora com o uniforme apertado,barriga de fora.Mas além de engordar também enlouquecera e o suicídio foi o seu fim poucos dias depois.Pois fora deste que Drumond escutara:

–Só tem duas maneiras de ser expulso daqui.Uma é por ser homossexual a outra é por uso de drogas.

Idéias esquisitas mas que não tiraram a disposição do recruta.Aliás neste aspecto o exercito não mudou.Havia um tenente que, com permissão do leitor, o chamarei de JJ.Vinte poucos anos,bem aparentado vindo de família carioca, mas rica.Não havia motivos, a não ser ocultos, para tirar o sustento do meio militar.Acredito que por isso,criou fama de gostar de soldados, pricipalmente os mais novos.Drumond se informou disso e o tranformou em alavanca na sua luta para ser expulso.JJ parecia desconhecer os objetivos do antes voluntário militar.Mas confirmando sua fama,se encantou pelo jovem e deu os motivos que Drumond queria para um escandalo .A sensação que tive era que o tenente tinha muitos desafetos pois o processo de expulção foi tão rápido quanto a velocidade com que se espalhou a calúnia.Tinha o dedo de Drumond.

Era uma manhã linda que definitivamente não combinava com uma cerimônia de expulsão do Exército Brasileiro.Para quem nunca viu vou descreve-la,pois muito me impressionou e ainda é vívida na memória.Toda tropa tem de ver para evitar uma “contaminação”,diziam..Perfilados estavam cerca de mil soldados ou o contigente todo do quartel,menos a guarda em serviço que dava segurança em tempos de guerrilha.Sem demora e acompanhado de dois guardas,JJ é trazido como que indo para a execução.Diante de toda a tropa ,é lida a sentença: “expulso por atos não condizentes com a vida militar trazendo vergonha sobre os colegas e para o exército brasileiro” algo assim.O Coronel comandante se aproxima de JJ e num movimento exagerado,arranca as insignias de tenente do seu ombro e as joga no chão.Seu uniforme é igualmente retirado ficando só de cuecas.Humilhado, não perdeu a pose e de cabeça erguida assiste a tropa inteira passar a sua frente ,ao som de um único surdo, olhando para o lado oposto num ato de repulsa.Drumond da janela do alojamento onde estava detido observa toda a cena e depois me conta que sentiu inveja do tenente.Deste nunca mais ouvir falar.

O desanimo tomou conta do meu colega de caserna.Não queriam expulsa-lo.Sacrificaram um competente Oficial mas ele estava fadado a ficar até mais que o obrigatório.Como exemplo,diga-se, o que fiquei sabendo depois.O fato é que tentei anima-lo.Contei a ele uma história sobre o quartel, na tentativa de criar nele um orgulho de ser militar, o que como já disse, eu passei a ter.Uma necessária aliança.

–Na década de 30 houve uma revolução em que o nosso quartel se viu cercado por forças poderosas e resistimos meses de forma heróica. –Disse isso mostrando a ele as marcas de tiros que até hoje marcam as paredes e mastro da badeira do quartel.Era um museu ao ar livre,um lembrete a todos os que ali passavam.Ele parecia não estar interessado mas continuei:

–O único jeito de abreviar a situação era envenenar o suprimento de água do quartel,que era fora dos seus domínios– Este conhecimento me esclarecera o porque da atual caixa d’água ser no meio do quartel e o ponto mais alto do mesmo.

–Pois o fizeram.Rapidamente a tropa enfraqueceu e antes que a derrota fosse total e humilhante,um jovem Tenente de nome Christo amarrou uma camisa na ponta da baioneta,como uma bandeira branca de rendição Um improviso que entrou para a história.Um ato de coragem pois andara no fogo cruzado anunciando o fim desejado da revolução.– Hoje sei que este oficial morrera cheio de dias e como General.

Parei o relato por observar um brilho nos olhos de Drumond.Algo se acendera naquela mente capaz de artimanhas.Passei a noite com receios de suas atitudes.Ele com certeza não pensaria em mim para conseguir seu intento.O que faria agora?

Seis semanas se passaram e tudo na mais tranquila paz.Drumond parecia outro.Seria a minha pequena história?A verdade era que ele havia mudado.Primeiro os sargentos depois os oficiais começaram a demonstrar real confiança no rebelde.Ledo engano.

Era dia de tropa perfilada.Aguardava-se a visita do General, comandante de brigada.

Terminada a corneta, um silêncio seguido de risos que logo se transformaram em gargalhadas espalhadas por toda a tropa em forma.De longe comecei a enteder a comédia.Um trapo branco tremulava no pau da bandeira.Era uma cueca visivelmente suja.Um General sorridente se aproxima ao ouvido do Coronel comandante e diz algo não tão humorado.Isto porque o Coronel se dirigi ao microfone e em voz séria faz uma pergunta a tropa:

–Quem foi o responsável por isto?

Não fiquei tão surpreso quando prontamente Drumond dá um passo a frente e grita

–Eu soldado Drumond, 1698, companhia de comando e serviço,senhor– completou já com um sorriso na cara.Mais tarde raciocinei que na prosa que tivera com ele sobre o Tenente heroi da década de 30, ele imaginara toda aquela situação.Era o brilho que saira do seu olhar.Fora uma grande jogada mas não de mestre.Não o expulsaram.Na verdade conquistara uma admiração da parte de alguns sargento e cabos,pela sua coragem.Como premio o colocaram na primeira baixa o que prorrogara o sofrimento do soldado apenas por mais poucos meses.Saiu sem se despedir e no esquecimento dos companheiros.Mas na minha memória ficou marcado como a outra bandeira branca heróica do Doze.

Fernando Drexon
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